Benjamin “BigGoose” Isohanni está sentado no balcão da cozinha de uma das casas da Los Angeles Gladiators, olhando para uma caneta ao lado de um livro de exercícios grosso. A lição de hoje é sobre palavras de relacionamento, como acima, abaixo, dentro, e, depois de uma pausa, ele profere as sílabas corretas em coreano.

A caneta está ao lado do livro. Ao lado dele, o rosto da professora Sophie Ahn exibe um sorriso. “Excelente!”, exclama ela.

Essa é a cena que se repete uma ou duas vezes por semana enquanto BigGoose abraça um desafio totalmente diferente de aprender a jogar com um novo herói de Overwatch ou dominar um novo meta.

“Lembrando da primeira temporada, acho que sempre tivemos a opção de fazer coreano”, diz BigGoose. “Sempre achei interessante, e acho que depois da primeira temporada quis aprender coreano só para ver o que acontecia. No fim das contas, é bem divertido. Eu não tenho passatempos fora jogos, então é como se fosse outro passatempo.”

Lembro que estamos realizando esta entrevista na segunda língua de BigGoose e que ele já passou por esse processo mais de uma vez, aprendendo inglês e sueco na sua infância na Finlândia. A União Europeia tem 24 idiomas oficiais, mas mais da metade da população é capaz de conversar fluentemente em um segundo idioma, com o inglês compondo uma grande parte dessa fatia.

Para os jogadores profissionais europeus, inglês é quase um pré-requisito, como BigGoose aponta. “Tudo em jogos na Europa é comunicado em inglês, então é mais natural para as pessoas da região serem um pouco melhores na língua. Na Finlândia, a gente aprende sueco. Eu fiz cinco anos, mas não sei nada.”

BigGoose não sabe como expressar em inglês por que o coreano é mais atraente para ele do que o sueco (“Não sei... É mais divertido, interessante, tudo...”), mas é verdade que o coreano e o finlandês têm muitos pontos em comum na pronúncia e na estrutura das frases, embora não sejam relacionados. Isso deixa as coisas um pouco mais fáceis de aprender, o que por sua vez torna o dever de casa menos maçante.

“Quando eu comparo com a época da escola, seja língua estrangeira, matemática, o que for, eu não fazia dever de casa, mas agora que estou estudando coreano, eu paro tudo para fazer o dever”, diz ele.

Ahn é só elogios para o BigGoose aluno. “A melhor coisa é que ele sempre está motivado”, diz ela. “Por exemplo, essa é a semana de descanso deles, [mas ele disse] ‘ah, estou tão entediado, quero ter aula’. Ter aula e estudar um idioma é um passatempo para ele, então ele está aprendendo bem rápido. Como professora, fico muito feliz e sempre me divirto dando aula para ele.”

Em geral, a participação de Ahn no mundo dos e-sports vai na direção contrária, orientando jogadores profissionais coreanos recém-chegados em diversos títulos de e-sports até que consigam um nível de proficiência em inglês que possibilite a integração com suas equipes. Só a Liga Overwatch já mantém Ahn bastante ocupada, pois ela dá aula para jogadores da San Francisco Shock, da Dallas Fuel, da Florida Mayhem e da Houston Outlaws, e com frequência ela publica anedotas das suas lições no Twitter. Nesta temporada, ela também começou a trabalhar com a London Spitfire, uma equipe 100% coreana que pode estar se preparando para a mudança de 2020.

“Os jogadores querem aprender inglês para quando saem ou pedem comida”, explica. “A maior motivação para eles foi quando visitaram Londres, eles queriam interagir com a torcida. Acho que eles só querem aprender inglês para os fãs e para a vida deles aqui, também.”

O que se acha na tradução

Os e-sports apresentaram um novo vocabulário para Ahn nos dois idiomas. Palavras do inglês como “tilt” (inclinar) e “throw” (arremessar) significam coisas bem diferentes no contexto dos jogos, por exemplo. Ela também mencionou alguns termos em coreano relacionados a Overwatch que achou interessantes:

Autodestruir: 자폭 (ja-pok) — “Nós conhecemos o termo na realidade, mas nunca o usamos.”

Transcendência: 초월 (cho-wol) — “É uma palavra bem abstrata, e na verdade é bonita.”

Mergulho: 돌진 (dol-jin)

Dano ouro: 딜금 (dil-geum) — “É tão estranho para mim, até em coreano.”

Ahn também está trabalhando com o trio coreano da Gladiators, claro: Gui-Un “Decay” Jang, Chang-Hoon “Roar” Gye e Jun-Woo “Void” Kang. Entre seus estudantes “formados”, ou seja, os que se tornaram proficientes o bastante para não precisarem mais de aula, estão o ex-Gladiator Jun-Sung “Asher” Choi, Jae-Hyeok “Carpe” Lee e Su-Min “Sado” Kim, da Philadelphia Fusion, e Young-Seo “Kariv” Park e Pan-Seung “Fate” Koo, da LA Valiant.

Para Ahn, a maior diferença entre ensinar inglês para jogadores coreanos e ensinar coreano para membros interessados das equipes e da comissão técnica está no incentivo. Muito do interesse no aprendizado de coreano vem da curiosidade ou do interesse pessoal, mas, para os jogadores coreanos em elencos mistos, aprender inglês é uma necessidade.

“Às vezes pode ser desafiador, porque nem sempre é algo que eles querem aprender, é porque eles têm que aprender para o trabalho”, afirma. “Quando não vão bem no palco, ficam frustrados, e às vezes pensam: ‘Será que é por causa do meu inglês?’. Mas, como também sou coreana, me envolvo mais quando [jogadores coreanos] se sentem estressados ou frustrados com o idioma, e sinto que parte da responsabilidade é minha, também.”

O coreano de BigGoose ainda não é avançado o bastante para que ele pratique com os colegas coreanos da Gladiators, e o inglês deles não é avançado o bastante para que incorporem a língua no dia a dia. Void já deu grandes passos desde que chegou no fim da temporada de 2018, mas, para um novato como Roar, o progresso ainda está nas fases iniciais.

“Ainda preciso melhorar meu inglês se quiser ter uma conversa de verdade com meus colegas de equipe”, diz. Pouco mais de um mês depois da sua estreia na Liga Overwatch, a confiança está vindo, embora a comunicação nas partidas ainda dependa muito da intuição e da visão de jogo.

A barreira do idioma ainda é real, mas, mesmo assim, ter uma atividade de aprendizado em comum aproxima os jogadores um pouquinho mais.

“Às vezes ajuda a quebrar o gelo na hora de socializar com os outros jogadores”, diz BigGoose. Às vezes ele vai até seus colegas coreanos e pergunta o significado de uma palavra, por exemplo, e ele absorveu algumas coisas por osmose. E se ainda não aprendeu palavrões em coreano... Bom, ele vai, com ou sem a supervisão de Ahn (todos aprendem).

Para Roar, mesmo que ainda não consiga se comunicar bem com seu colega, ver BigGoose estudar coreano tem sido interessante. “Como BigGoose é um dos jogadores que gostam muito de comida coreana também, eu pensei ‘ah, ele está querendo aprender mais sobre a cultura’,” diz ele.

Nesse sentido, time é uma coisa engraçada. Claro, a comunicação e a coordenação no jogo são os fatores que levam à vitória, mas, quando se passa tanto tempo com os outros praticamente todo dia, desenvolver relações pessoais pode ajudar a aliviar a pressão do trabalho. A Gladiators tem funcionários de apoio bilingues, mas talvez um dia BigGoose não dependa tanto de um tradutor.

“No jogo, você pode criar palavras-chave e atalhos para se comunicar”, diz ele. “Mas fora do jogo... É muito importante poder expressar seus pensamentos, suas frustrações, suas boas ideias. Pode ser mais importante do que as coisas no jogo.”

Assista a todos os confrontos da temporada de 2019, ao vivo ou quando você quiser, em overwatchleague.com, no aplicativo da Liga Overwatch e no nosso canal na Twitch.